SÉRIE "SOMBRA" 2020

Neste ano, precisamos nos adaptar a uma nova rotina em isolamento social, e dentro desse novo ritmo pude estabelecer uma conexão maior com a ambiente a minha volta, perceber detalhes que, por vezes, precisam de um tempo maior de observação, como as sombras que me acompanhavam no deambular entre os cômodos ao longo do dia. Essas sombras que escolhi representar, foram produzidas pelos objetos que fazem parte da minha produção visual, e assumem diferentes anamorfoses de acordo com a luz incidente sobre o objeto.
Começo a cerzir essa mancha de sombra no papel utilizando a máquina de costura, que une um ponto ao outro da imagem com um padrão que vai se repetindo através dos módulos. Utilizei  como suporte, em alguns desses trabalhos, papel de livro impresso em tipografia, parte dos meus documentos de trabalho. Incorporando um suporte, não só tão antigo quanto os objetos, mas que faziam parte, provavelmente, da mesma história. 
Esses trabalhos partem do interesse em capturar essa presença sem substância, que são as sombras, projetadas por objetos que fazem parte do meu cotidiano em casa, e que são traduzidas em matéria. Essa experiência me fez lembrar o conto de Plínio o Velho, em que Dibutade a fim de reter a imagem de seu amado que partiria para a guerra, contorna a sombra dele projetada por uma vela em uma parede, momento que, segundo muitos historiadores, marca o surgimento do desenho. 
No trabalho Sombra #4, incorporei ao suporte outro elemento de coleção, papéis de chá guardados ao longo dos últimos 5 anos. A colagem dos papéis traz para o suporte uma variação tonal, que se junta ao vestígio da sombra projetada por esses objetos.
Faço uma relação dessas sombras como um tipo de impressão, em que o objeto atua como uma máscara, que impede a passagem da luz.
Para dar forma à essas sombras que estiveram em contato com o papel, e tiveram sua silhueta contornada a fim de conservar o formato, procurei por algo que me remetesse a repetição da gravura, após alguns experimentos, decidi incorporar um gesto mecânico de repetição de pontos utilizando a máquina de costura. As linhas em ziguezague se repetem no sentido da leitura, se multiplicam e se somam às letras impressas do livro formando uma zona escura.

Mais detalhes ao abrir as imagens, na legenda das fotos.

Sombra #2 - Quarentena

Sombra #3 - Quarentena

Sombra #1 - Quarentena

Vídeo do processo de costura sobre papel de livro.                                                                                 Vídeo: Bruno Tamboreno

Sombra #4 - Quarentena

Sem  título

Sombra #5

Sombra #6

Vídeo do processo de costura sobre pintura com guache e aquarela.                                                    Vídeo: Bruno Tamboreno

Sombra #7

Sombra #8

Sombra #9

Sombra #11

Sombra #12

Documentos de Trabalho

"Material de caráter privado que testemunha o momento de instauração de uma idéia [...] Eles podem fazer parte da rotina do atelier ou do entorno dos artistas; são imagens coletadas com rigor ou simplesmente redescobertas pelo olhar. O valor de documento que essas imagens ou objetos possam conter está relacionado à maneira como esses se colocam em perspectiva com o olhar sobre o mundo proposto por cada um dos artistas através de suas obras. O que se documenta nesse caso é o desejo de criar incorporado a esses elementos."

(Flávio Gonçalves)

     O assunto principal desta série de gravuras, são os objetos de convívio diário, em casa, no ateliê e nos lugares que me atravessam, que tornaram-se meus documentos de trabalho. Tais objetos estão imbuídos de memórias e significados que não são só meus, pois tratam-se de objetos antigos pertencentes à outra família, há gerações. Esse contexto aumenta a minha curiosidade sobre eles, pois o distanciamento da pessoa a quem originalmente ele pertencia, as poucas informações e o fato de que ele significava muito, por ter sido conservado tão bem durante todos esses anos, me convida à olhá-los mais atentamente. Além de escolher esses objetos pela memória que carregam, elejo-os por sua estética e formas que proporcionadas pela gravura, um processo muito rico em detalhes e um resultado de possíveis sobreposições e hibridizações entre técnica e imagética. Reapresentar esses objetos é para mim uma forma de apropriação para incorporá-la a minha própria experiência. Retirá-los de seu lugar e de sua função de origem para assegurar a sua existência como objeto estético e artístico em um espaço-tempo.


      Para imprimir, optei por fabricar o papel outorgando algo mais pessoal para essas imagens. Produzi fibras de bananeira bem finas e com uma gramatura mais baixa, que confere ao papel maior leveza e transparência.

Composição III, 2020